O meu avô tinha mãos do tamanho de um prato. Quando eu era pequena, ele me deixava ficar em cima de um caixote de madeira, ao lado dele na bancada, e a gente sovava a massa junto: as mãos dele por cima das minhas, empurrando, dobrando, virando. Eu achava que estava ajudando. Hoje eu sei que ele fazia todo o trabalho e me deixava achar que era eu.
O Vô Orlando foi padeiro por quarenta anos. Acordou às três da manhã por quatorze mil dias, mais ou menos, segundo a conta que o meu tio Luiz fez no velório. Fez pão para um bairro inteiro, e para mim fez o pão de todos os domingos da minha infância.
Ele partiu em agosto de 2024, aos 93 anos. Eu escrevo este livro porque as histórias dele estavam só na cabeça dele e um pouco na minha, e a minha já começou a esquecer os detalhes. Escrevo para os meus filhos, que eram pequenos demais para lembrar do bisavô, e um pouco para mim, para continuar sentindo o cheiro.
“Pão não tem pressa. Quem tem pressa é a gente.”


















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