A Life Remembered

Orlando Benetti

1931 · 2024

Antônio Prado, March 1931 · Caxias do Sul, August 2024 · aged 93

Padeiro

padeiro, marido da Irma, pai da Marta e do Luiz, avô

Written by Júlia Benetti Rossi (granddaughter)

A fictional example, made by the Come Ricordo team for demonstration.

O meu avô tinha mãos do tamanho de um prato. Quando eu era pequena, ele me deixava ficar em cima de um caixote de madeira, ao lado dele na bancada, e a gente sovava a massa junto: as mãos dele por cima das minhas, empurrando, dobrando, virando. Eu achava que estava ajudando. Hoje eu sei que ele fazia todo o trabalho e me deixava achar que era eu.

O Vô Orlando foi padeiro por quarenta anos. Acordou às três da manhã por quatorze mil dias, mais ou menos, segundo a conta que o meu tio Luiz fez no velório. Fez pão para um bairro inteiro, e para mim fez o pão de todos os domingos da minha infância.

Ele partiu em agosto de 2024, aos 93 anos. Eu escrevo este livro porque as histórias dele estavam só na cabeça dele e um pouco na minha, e a minha já começou a esquecer os detalhes. Escrevo para os meus filhos, que eram pequenos demais para lembrar do bisavô, e um pouco para mim, para continuar sentindo o cheiro.

“Pão não tem pressa. Quem tem pressa é a gente.”

o vô na cozinha, 2021
o vô na cozinha, 2021
as mãos na massa
as mãos na massa

Part 1

A colônia

March 1931 – 1945

Antônio Prado

a família na Linha 21, anos 1930
a família na Linha 21, anos 1930

Ele nasceu em março de 1931, numa casa de madeira na Linha 21, interior de Antônio Prado, o sétimo de nove irmãos. Ninguém sabe o dia: a parteira anotou num papel que se perdeu, e o padre só batizou em maio. Ele comemorava no dia 19 de março, dia de São José, “porque algum dia tinha que ser”.

Em casa se falava o talian, o dialeto dos avós que vieram do Vêneto, e o português ele aprendeu na escola de uma sala só, onde estudou até a quarta série. Depois disso, era a roça: parreira, milho, a vaca de leite, as galinhas. Ele contava que a coisa mais gostosa da infância era a polenta torrada na chapa do fogão a lenha, de manhã cedo, antes de ir para a lavoura.

A mãe dele, a bisa Rosa, fazia pão uma vez por semana, num forno de barro no quintal. Ele dizia que foi ali, sentado no chão ao lado do forno, esperando o primeiro pedaço, que ele resolveu o que ia ser na vida. Tinha seis anos.

1945

O primeiro pão

Aos quatorze anos, ele foi morar na cidade de Antônio Prado, na casa do tio Bepi, que tinha uma padaria pequena na praça. Dormia num colchão de palha no depósito da farinha e acordava às três para acender o forno. O tio era bravo e não explicava nada. Ele aprendeu olhando.

O primeiro pão que ele fez sozinho saiu queimado por baixo e cru no meio. O tio cortou, olhou, e jogou para as galinhas sem dizer uma palavra. Ele contava essa história rindo, setenta anos depois, e sempre terminava igual: “As galinhas gostaram”.

com o tio Bepi, 1945
com o tio Bepi, 1945

June 1951

A ida para Caxias

Aos vinte anos, ele achou que Antônio Prado tinha ficado pequena. Num dia de junho, de madrugada, subiu na carroceria de um caminhão de lenha que ia para Caxias, com uma mala de papelão, um casaco de lã que a bisa Rosa tricotou e o endereço de um primo escrito na palma da mão, para não perder.

Fez a viagem inteira sentado na lenha, no frio de junho da Serra, e chegou com as costas doendo e as mãos pretas. O primo não morava mais no endereço. Ele dormiu duas noites na rodoviária e, no terceiro dia, bateu na porta da maior padaria da cidade e perguntou se precisavam de alguém que acordasse cedo.

Precisavam.

September 1954 – May 12, 1956

A Irma

Ele conheceu a vó Irma no baile da paróquia, num sábado de setembro. Ela tinha uma trança até a cintura e dançava melhor que todo mundo. Ele não sabia dançar. Passou a noite inteira encostado na parede, olhando, e só tomou coragem na última música. Pisou no pé dela três vezes. Ela disse, anos depois, que foi justamente isso que a convenceu: “um homem que pisa no pé e pede desculpa três vezes é um homem honesto”.

Namoraram um ano e meio na sala da casa dela, com a mãe da Irma tricotando no canto. Toda visita, ele levava um pão de presente, um diferente de cada vez, para impressionar a sogra. Funcionou.

Casaram em 12 de maio de 1956, na igreja de São Pelegrino. O bolo de casamento, claro, foi ele que fez.

Orlando e Irma, 12 de maio de 1956
Orlando e Irma, 12 de maio de 1956

Part 2

A padaria

March 1958

A Padaria Benetti

Em março de 1958, com o dinheiro que os dois juntaram em dois anos e um empréstimo do irmão da Irma, eles alugaram uma sala de esquina no São Pelegrino e abriram a padaria. Um forno a lenha, um balcão de madeira, duas prateleiras e um sino de latão na porta, que tocava cada vez que alguém entrava. O sino ficou lá por trinta e oito anos.

O dia dele começava às três. Acendia o forno, sovava a primeira massa, e às seis o pão francês saía, quando a fila já dobrava a esquina. A vó Irma atendia o balcão, fazia as contas de cabeça e sabia o nome de todo mundo, até dos cachorros. Ele quase não aparecia na frente. Dizia que o lugar dele era nos fundos, “onde o pão acontece”.

Nos domingos tinha cuca de uva, a receita da bisa Rosa. Acabava antes das nove.

a padaria, fim dos anos 1960
a padaria, fim dos anos 1960
o sino da porta, que tocou por trinta e oito anos
o sino da porta, que tocou por trinta e oito anos

1960 – 1990

O caderno de fiado

Embaixo do balcão ficava um caderno preto de capa dura: o caderno de fiado. Quem não tinha dinheiro no dia levava o pão e o nome ia para o caderno. A maioria pagava no fim do mês. Alguns nunca pagaram, e ele nunca cobrou.

Quando a padaria fechou, a vó Irma quis queimar o caderno, para ninguém se sentir em dívida. Ele não deixou. Guardou na gaveta da cômoda, e de vez em quando abria e lia os nomes, devagar, como quem lê uma lista de amigos.

No velório, um senhor que eu nunca tinha visto chegou com um pão embrulhado em papel e disse para a minha mãe: “Meu nome está no caderno dele. Em 1963 eu fiquei desempregado e ele me deu pão por seis meses”. Deixou o pão em cima do caixão e foi embora.

o caderno na gaveta da cômoda
o caderno na gaveta da cômoda

October 1958 – April 1962

Os filhos

Marta e Luiz, anos 1970
Marta e Luiz, anos 1970

A Marta, minha mãe, nasceu em outubro de 1958, sete meses depois da padaria. Ela diz que foi criada dentro de um caixote de farinha forrado com um cobertor, ao lado do forno, “o lugar mais quentinho de Caxias”. O Luiz nasceu em abril de 1962 e, segundo o vô, nasceu com fome e nunca mais parou.

Os dois cresceram ajudando: a Marta no caixa, o Luiz entregando pão de bicicleta nas casas do bairro, com uma cesta de vime no guidão. Nenhum dos dois quis ser padeiro. Ele nunca reclamou. Dizia que acordar às três era castigo bom só para quem escolhe.

A bocha e o rádio

Domingo, depois do almoço, era sagrado: bocha. Atrás da padaria tinha uma cancha de chão batido, e os vizinhos, os primos e os fregueses se juntavam ali até escurecer, discutindo cada jogada em talian, com o rádio de pilha em cima de um banquinho transmitindo o jogo do Juventude.

Ele era bom de bocha e péssimo perdedor. Quando o Juventude perdia também, a vó Irma mandava todo mundo para casa mais cedo. “Hoje não tem conversa”, ela dizia, e tinha razão.

a bocha, anos 1980
a bocha, anos 1980

December 1996

O último pão

Em dezembro de 1996, aos 65 anos, com as costas reclamando e os filhos insistindo, ele fechou a padaria. No último dia, fez o pão de sempre, abriu às seis, e deu pão de graça para todo mundo que entrou. A fila foi até a outra quadra. Muita gente chorou na fila.

À tarde, ele tirou o sino da porta, enrolou num pano de prato e levou para casa. O sino está hoje na sala da minha mãe, na prateleira, ao lado da foto do casamento. Ninguém toca. Mas às vezes, quando alguém passa, ele balança sozinho.

o último dia da padaria, dezembro de 1996
o último dia da padaria, dezembro de 1996

Part 3

O vô

A horta

a horta ao amanhecer
a horta ao amanhecer

Depois da padaria, ele não soube ficar parado. Transformou o quintal da casa da Rua Pinheiro Machado numa horta: tomate, alface, radicci, feijão de vagem, uma parreira que dava uva preta em fevereiro. Continuava acordando às três, por costume, e às cinco já estava no quintal com a lanterna, conversando com os tomates.

Todo sábado ele mandava uma sacola de verdura para cada filho, e uma menor para mim, com um bilhete na letra torta dele: “para a arquiteta”. Eu guardei todos os bilhetes numa caixa de sapato. São 214.

July 2015

A cadeira vazia

A vó Irma partiu em julho de 2015, depois de cinquenta e nove anos de casamento. Ele não chorou no velório. Ficou sentado ao lado do caixão a noite inteira, segurando a mão dela, e de manhã cedo foi para casa fazer pão para quem tinha vindo do enterro.

Durante meses, ele continuou pondo duas xícaras na mesa do café. A minha mãe tentou tirar uma vez. Ele pôs de volta, sem dizer nada. Um dia, uns dois anos depois, eu cheguei para o café e tinha uma xícara só. Ele viu que eu notei e disse: “Ela já sabe que eu lembro”.

as duas xícaras
as duas xícaras

A cantiga

Enquanto sovava a massa, ele cantava baixinho, sempre a mesma cantiga, em talian, que ele dizia ter aprendido com a bisa Rosa ao lado do forno de barro. Eu cresci ouvindo sem entender. Só aos vinte anos pedi para ele me ditar a letra e traduzir. Ele traduziu do jeito dele, rindo, e ficou assim:

Gira a massa, gira o dia,

quem acorda cedo tem

pão na mesa, paz na casa

e um lugar pra mais alguém.

Nos 90 anos dele, em março de 2021, a família toda se juntou no quintal, e ele insistiu em fazer o próprio pão da festa. Fez sentado, com a gente segurando a tigela. No fim, puxou a cantiga, e os bisnetos, que não sabem uma palavra de talian, cantaram junto o “gira a massa”, batendo palma fora do tempo.

os 90 anos, março de 2021
os 90 anos, março de 2021
o caderno da cantiga
o caderno da cantiga

August 2024

A despedida

Nas últimas semanas, ele esquecia os nomes dos bisnetos, mas nunca a receita da cuca. Numa tarde de agosto, fria, fez uma cuca de uva com a minha ajuda, comeu um pedaço, disse que a uva desse ano estava fraca, e foi deitar cedo. Descansou dormindo, de madrugada, mais ou menos na hora em que, por quarenta anos, acendia o forno.

No velório, apareceu gente que a família não conhecia: fregueses antigos, filhos de fregueses, o senhor do caderno de fiado. Muitos trouxeram pão. No fim da tarde, a mesa da capela parecia o balcão da padaria num domingo de manhã.

“Quem faz pão para os outros nunca come sozinho.” Era o que ele dizia, e era verdade até o fim.

os pães na capela
os pães na capela

Carta para o vô

Vô,

hoje seria o teu aniversário, ou o dia que tu escolheste para ser. Fiz cuca de uva pela tua receita. A uva estava boa, mas a massa não ficou igual. Eu sei o porquê: faltaram as tuas mãos por cima das minhas.

Escrevi este livro para que o Teo e a Nina saibam quem foi o bisavô deles. Que tu chegaste em Caxias numa carroceria de lenha, que pisaste três vezes no pé da vó, que deste pão fiado por seis meses para um homem desempregado e nunca contaste para ninguém. Que cantavas sovando a massa.

Eu fico com o sino, o caderno e a cantiga. E com as mãos, que agora sovam sozinhas e ainda acham que és tu que estás fazendo o trabalho.

Com todo o amor do mundo,

Júlia

Linha do tempo

  1. March 1931Nasce em Antônio Prado, sétimo de nove filhos
  2. 1945Começa como ajudante na padaria do tio Bepi, aos 14 anos
  3. June 1951Vai para Caxias do Sul na carroceria de um caminhão de lenha
  4. September 1954Conhece a Irma no baile da paróquia
  5. May 12, 1956Casa com a Irma
  6. March 1958 – December 1996A Padaria Benetti, no bairro São Pelegrino
  7. October 1958Nasce a Marta
  8. April 1962Nasce o Luiz
  9. February 3, 1990Nasce a Júlia, a primeira neta
  10. December 1996Fecha a padaria e se aposenta, aos 65 anos
  11. July 2015Falece a Irma
  12. March 2021Faz 90 anos, com pão feito por ele
  13. August 2024Falece em casa, aos 93 anos

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