Filha, este livro começou numa manhã de julho, com dois risquinhos num teste e o seu pai ainda de escova de dente na mão. Desde então a gente foi guardando tudo aqui: os enjoos, o primeiro ultrassom, a noite em que você chegou em casa, a primeira papinha, os primeiros passos. Escrevemos quase sempre de noite, depois que você dormia, para você ler um dia, quando quiser saber como foi o começo.
A fictional example, made by the Come Ricordo team for demonstration.
Part 1
Dois risquinhos
Dois risquinhos
July 12, 2022

Eram sete e meia da manhã e o Biscoito ainda dormia no tapete do corredor, de barriga para cima. Eu fiz o teste sem contar para ninguém, nem para o seu pai, porque já tinha feito tantos naquele ano que não queria mais criar esperança. Deixei em cima da pia, virado para baixo, e fui escovar os dentes devagar, contando os minutos no relógio do celular como quem conta os segundos antes de abrir uma carta.
Quando virei o teste, eram dois risquinhos. Um forte e um fraquinho, tão fraquinho que eu levei o teste até a janela para ver na luz. Continuava lá. Sentei no chão frio do banheiro, com as costas na porta, e chorei de um jeito que eu não chorava desde criança.
Seu pai bateu na porta perguntando se estava tudo bem. Eu não consegui responder. Só abri, ainda sentada no chão, e levantei o teste para ele ver. Ele se abaixou, olhou, olhou de novo, e ficou um tempo calado, com a escova de dente dele ainda na mão. Depois disse, baixinho: “então é de verdade”.
Naquela manhã ninguém foi trabalhar no horário. Tomamos café na cozinha com o teste em cima da mesa, entre o pão e a manteiga, como se fosse uma coisa que precisasse ser vigiada. O Biscoito acordou, cheirou a gente e voltou a dormir. Ele ainda não sabia que a vida dele também ia mudar.

Os primeiros enjoos
July 26, 2022

Durante semanas, o cheiro do café do seu pai virou meu inimigo. Logo eu, que tomava três xícaras por dia e corrigia provas com a caneca do lado. Bastava ele abrir o pote de pó para eu sair da cozinha com a mão na boca. Ele tentou de tudo: café mais fraco, outra marca, janela aberta. Nada funcionou.
Então ele passou a tomar café na varanda, de porta fechada, mesmo nas manhãs de inverno. Eu via pelo vidro ele ali fora, de casaco, segurando a caneca com as duas mãos para esquentar, e ria mesmo enjoada. Dizia que era o primeiro sacrifício que fazia por você, e que você ia ficar devendo.
Eu passei a viver de bolacha de água e sal e de manga. Só manga. Seu pai comprava na feira de sábado, escolhia as mais maduras, e eu comia duas por dia, debruçada na pia para não sujar a roupa. Na escola, as outras professoras desconfiaram antes de eu contar, porque eu levava manga cortada no pote do lanche todos os dias.
Os enjoos foram embora no terceiro mês, do mesmo jeito que chegaram, sem avisar. O café voltou para a cozinha. A vontade de manga ficou, e você nasceu gostando. Até hoje, quando vê uma manga na fruteira, você aponta e diz que é sua.
O primeiro ultrassom
August 9, 2022

A sala de espera tinha uma televisão ligada sem som e uma pilha de revistas antigas que ninguém lia. Seu pai balançava a perna sem parar, e eu segurava a mão dele para ele parar, e ele parava, e começava de novo. Quando a enfermeira chamou meu nome, nós dois levantamos ao mesmo tempo, como se fosse uma prova.
Você tinha o tamanho de uma uva. Na tela, era uma manchinha cinza dentro de uma mancha preta, e eu não entendia muito bem o que estava vendo. Então a Dra. Ana ligou o som, e o quarto inteiro se encheu de um galope rápido, muito rápido, como cavalinhos correndo longe. Era o seu coração.
Seu pai, que não chora nem em filme, ficou olhando para a tela com os olhos cheios. Não disse nada. Quando a Dra. Ana perguntou se ele queria ouvir de novo, ele só fez que sim com a cabeça. Ela deixou o som tocar mais um pouco, sem pressa, e ninguém na sala falou.
Saímos de lá com a primeira foto sua, em preto e branco, num papel fininho que enrolava nas pontas. Em casa, seu pai prendeu na porta da geladeira com o ímã de coração de madeira, bem no meio, e ali ela ficou até o dia em que você nasceu. Toda vez que eu abria a geladeira, dava bom dia para a uva.
Contando para a vó Marlene
August 21, 2022

A gente combinou de contar para a vó no almoço de domingo, porque domingo na casa dela é sagrado: frango assado, maionese e pudim, sempre. Seu pai comprou um par de meias de bebê, brancas, com uma barrinha amarela, e eu dobrei as meias dentro do guardanapo do lugar dela antes de ela sentar.
A vó desdobrou o guardanapo, olhou as meias, dobrou de novo, desdobrou outra vez. Perguntou se era para alguém da igreja, porque a filha da dona Lurdes estava esperando. Eu disse que não. Ela olhou para mim, depois para o seu pai, depois para mim de novo, e eu vi o exato momento em que ela entendeu.
Ela largou o garfo no prato com um barulho que assustou o Biscoito e veio me abraçar por trás da cadeira, com as mãos ainda sujas do molho do frango. Ficou ali, me apertando e falando baixinho “meu Deus, meu Deus”, enquanto o seu pai tentava salvar o guardanapo.
O frango esfriou. O pudim ficou na geladeira até a hora do café. Ninguém se importou. Antes de a gente ir embora, a vó pegou as meias de volta, guardou na gaveta da cômoda e disse que iam ficar com ela até você chegar. E ficaram
Ouvindo o coração de novo
August 30, 2022

Doze semanas. Eu tinha passado a noite sem dormir direito, acordando a cada hora com medo de que alguma coisa tivesse mudado, de que o galope tivesse parado. Seu pai fingia que dormia, mas eu sabia que ele também estava acordado, porque ele não roncou nenhuma vez.
Não tinha mudado nada. Lá estava você, agora com braços e pernas, mexendo como se estivesse nadando numa piscina grande demais. A Dra. Ana mostrou a sua mão na tela, aberta, e disse que você parecia estar acenando. Seu pai acenou de volta para a tela, e a Dra. Ana fingiu que não viu.
Ela sorriu e disse que estava tudo bem. Foi a frase mais bonita que eu ouvi naquele ano. Na saída, no corredor, seu pai segurou meu rosto com as duas mãos e disse que agora eu podia contar para todo mundo. Tínhamos combinado esperar as doze semanas, e as doze semanas tinham chegado.
Mandei a foto no grupo da família antes de chegar ao carro. Quando abri a porta do carro, já tinha quarenta mensagens. A tia Neusa mandou um áudio de três minutos chorando. O vô, que não sabe digitar direito, mandou só um coração vermelho. Foi o primeiro coração que ele mandou na vida.
É uma menina
October 28, 2022

Era o dia de descobrir se você era menino ou menina, e você estava de costas e não queria se mostrar de jeito nenhum. A Dra. Ana tentou de um lado, tentou do outro, apertou a barriga com cuidado. Você se encolheu mais ainda. Já tinha personalidade.
Ela pediu para eu tomar um copo de água gelada e caminhar pelo corredor. Eu caminhei três vezes, de um lado para o outro, passando pelas outras grávidas da sala de espera, que já sabiam o que estava acontecendo e torciam por mim com os olhos. Quando voltei, você tinha se virado.
“É uma menina”, disse a Dra. Ana. E o seu pai respondeu na hora, sem pensar, sem olhar para mim: “Helena”. A gente já tinha conversado sobre nomes muitas vezes, na cama, no carro, numa lista no celular com doze nomes riscados. Helena era um deles. Mas foi ali, naquele segundo, que o seu nome virou o seu.
No caminho de volta, paramos numa loja e seu pai comprou um macacão amarelo, porque disse que rosa todo mundo ia dar. Ele estava certo. Você ganhou dezessete roupas cor-de-rosa no chá de bebê e um único macacão amarelo, o dele.
O primeiro chute
November 8, 2022

Eu estava corrigindo redações no sofá, com a pilha de folhas no colo, quando senti. Foi como uma bolha estourando por dentro, pequena e rápida. Parei com a caneta no ar. Esperei. E veio de novo, um pouco mais para o lado. Era você.
Gritei pelo seu pai, que estava na oficina no fundo do quintal. Ele veio correndo, ainda de avental, com serragem no cabelo, e pôs a mão na minha barriga com todo o cuidado do mundo. Nada. Ficou ali vinte minutos, quieto, sem se mexer, a mão aberta, esperando. Nada.
Na hora em que ele desistiu e foi lavar as mãos na pia da cozinha, você chutou de novo. Duas vezes. Eu ri tanto que as redações caíram no chão. Ele voltou correndo com as mãos molhadas, e você ficou quieta de novo, como se tivesse combinado.
Ele levou mais uma semana inteira para sentir. Tentava toda noite, antes de dormir, com a mão na minha barriga e falando com você. Quando finalmente sentiu, numa quinta-feira, levantou da cama e foi até o corredor chamar o Biscoito para contar. O Biscoito não entendeu nada, mas abanou o rabo mesmo assim.
O berço que o pai fez
December 2022

No sítio do vô tinha uma cerejeira velha, plantada pela bisa quando o vô era menino. Num temporal de setembro, ela caiu. O vô ficou triste por dias, até que seu pai foi lá, olhou o tronco e disse que ia fazer o seu berço com aquela madeira. O vô gostou tanto da ideia que ajudou a carregar as tábuas.
Seu pai passou as noites de dezembro na oficina, depois do trabalho. Eu levava janta para ele lá, porque ele não queria parar. Lixou cada ripa à mão, uma por uma, porque dizia que máquina deixa farpa escondida, e que farpa escondida é coisa que não se perdoa num berço. Testava passando a palma da mão e, depois, o rosto.
Algumas noites eu sentava num banquinho no canto da oficina e ficava só olhando. O cheiro de madeira e de verniz, o rádio baixinho, a luz amarela da lâmpada. Ele falava com você enquanto trabalhava, explicando o que estava fazendo, como se você já pudesse aprender.
Na véspera do Natal, ele trouxe o berço para dentro de casa, ainda cheirando a verniz, e montou no quarto sem me deixar ver. Quando abriu a porta, o berço estava ali, embaixo da janela, cor de mel. Na cabeceira, ele tinha entalhado um H pequeno. Você dormiu nele até os dois anos, e o vô diz até hoje que a cerejeira não morreu, só mudou de casa.
O chá de bebê
January 14, 2023

A vó fez questão de que fosse na casa dela. Disse que chá de bebê de neta dela não ia ser em salão, e pronto. Passou a semana inteira cozinhando: cuca de uva, pão de queijo, docinhos em forminhas amarelas, porque ela também achava que rosa todo mundo ia dar.
Vieram as tias, as minhas amigas da escola, a Dra. Ana mandou um presente pelo correio e apareceram duas vizinhas que eu nem sabia que sabiam. A casa ficou tão cheia que o Biscoito foi exilado no quintal, de onde ficou olhando pela porta de vidro com cara de injustiçado.
Brincamos de adivinhar o tamanho da barriga com um barbante. Cada uma cortava o pedaço que achava certo, e depois a gente media. A tia Neusa errou por meio metro e jurou que a fita tinha encolhido. Rimos tanto que eu precisei sentar, e você chutou a tarde inteira, como se estivesse participando.
No fim, quando todo mundo já tinha ido, a vó me entregou um pacote embrulhado em papel de seda. Dentro tinha o começo de uma manta de crochê amarela, umas dez carreiras, e o novelo com a agulha ainda presa. “Termino até ela chegar”, disse. Não terminou. Terminou no Natal seguinte, e diz que a culpa foi sua, que nasceu antes de ela acabar.

A mala da maternidade
February 14, 2023

Fizemos a lista três vezes. A primeira, eu fiz sozinha, com base numa lista da internet que tinha coisas que eu nem sabia o que eram. A segunda, a vó revisou e riscou metade. A terceira, seu pai passou a limpo com a letra de marceneiro dele, toda em maiúsculas, e colou na porta da geladeira, ao lado da sua foto de ultrassom.
Bodies tamanho RN e P, porque ninguém sabia se você ia ser pequena ou grande. As meias da vó, aquelas do almoço de domingo. O macacão amarelo do seu pai. Documentos, carregador, uma camisola minha, chinelo, e um pacote de bolacha de água e sal que ele colocou escondido, por via das dúvidas.
Seu pai conferia a lista toda noite antes de dormir, item por item, abrindo a mala e fechando de novo. A mala ficou pronta ao lado da porta do quarto por um mês inteiro. O Biscoito cheirava a mala toda manhã, como se soubesse que ali dentro tinha alguma coisa importante.
E toda vez que eu levantava de madrugada para ir ao banheiro, o que acontecia umas quatro vezes por noite, seu pai sentava na cama de olho arregalado e perguntava: “é hoje?”. Não era. Durante um mês, não era. Ele perguntou tantas vezes que, quando finalmente foi, eu tive que repetir três vezes até ele acreditar.
A barriga, mês a mês
August 2022

A ideia foi do seu pai. Todo dia 7, de manhã, ele me fazia ficar de perfil na frente da estante de livros da sala, sempre no mesmo lugar, com a mesma blusa branca, e tirava uma foto. Ele marcou o lugar dos meus pés no chão com um pedacinho de fita crepe, para não errar.
No começo, a gente precisava olhar com muita atenção para ver alguma diferença. Eu dizia que estava igual, ele dizia que não, que dava para ver, e a gente comparava as fotos no celular, uma do lado da outra, discutindo milímetros. Em outubro, ninguém mais discutia.
A blusa branca foi ficando curta. Em janeiro, eu precisei pegar uma camisa dele emprestada. Em março, eu mal cabia no enquadramento, e seu pai teve que dar dois passos para trás e quase derrubou o vaso da vó. A estante continuou igual. Os livros continuaram no mesmo lugar. Só eu crescia.
São oito fotos, uma ao lado da outra, de agosto a março. Quando eu olho para elas, não vejo só a minha barriga. Vejo você crescendo, mês a mês, em silêncio, antes de qualquer um de nós te conhecer. Você já estava aqui o tempo todo, na frente da estante, esperando a sua vez de aparecer na foto.
Part 2
Bem-vinda, Helena
Bem-vinda, Helena
March 14, 2023first day

Começou às onze da noite, com uma dor diferente das outras. Eu acordei seu pai com calma, e dessa vez ele não perguntou se era hoje. Levantou, pegou a mala, esqueceu o chinelo, voltou para buscar, esqueceu a chave do carro, voltou para buscar. O Biscoito ficou na porta, latindo baixinho, como se quisesse ir junto.
Chovia fino, aquela chuva de março que não molha muito mas não para. A cidade estava vazia. Seu pai dirigiu devagar, com as duas mãos no volante, falando comigo o caminho inteiro sobre qualquer coisa, sobre o tempo, sobre o berço, sobre a cerejeira, para eu não pensar na dor.
Você nasceu às quatro e cinquenta e dois da manhã, com 3,2 kg e 49 cm. Chorou alto, muito alto, e parou no instante em que te colocaram no meu peito, como se dissesse que estava tudo certo, que agora estava tudo no lugar. A primeira coisa que eu reparei foram as suas mãos, compridas, iguais às do seu pai.
A segunda foi o silêncio. A enfermeira apagou a luz forte e o quarto ficou quieto, só com o barulho da chuva na janela. Seu pai sentou do meu lado, na beira da cama, e nós três ficamos ali nos olhando pela primeira vez. Ninguém falou nada por um bom tempo. Não precisava.
You arrived!
- Day
- 03/14/2023
- Time
- 4h52
- Weight
- 3,2 kg
- Length
- 49 cm
Santa Cruz Do Sul
A primeira noite em casa
March 16, 20232 days

Chegamos em casa no fim da tarde. Seu pai dirigiu tão devagar que um ônibus buzinou atrás da gente, e ele nem ligou. Quando abrimos a porta, o Biscoito veio correndo, parou de repente a um metro da cadeirinha e ficou olhando. Depois chegou perto, cheirou você inteira, do pé à cabeça, e deitou do lado da cadeirinha. Não saiu mais de perto.
Você acordou a cada duas horas, pontualmente, como um despertador. E a cada duas horas o seu pai acordou junto, mesmo sem ter o que fazer, porque ele não amamenta. Ele levantava, trazia um copo de água para mim, ajeitava o travesseiro, e ficava sentado na beira da cama olhando você mamar, com cara de quem estava vendo um milagre.
Às quatro da manhã, a casa toda dormia menos nós duas. Eu te amamentava na poltrona do quarto, aquela de veludo verde que era da vó, com a luz do corredor acesa e o Biscoito roncando no tapete. Lá fora, um passarinho começou a cantar antes do sol.
Foi ali, naquela poltrona, que eu pensei que nunca tinha estado tão cansada e tão feliz ao mesmo tempo. Não sabia que as duas coisas cabiam juntas. Você soltou o peito, suspirou, e dormiu com a boca aberta. Eu fiquei acordada mais um pouco, só para olhar.
O primeiro sorriso de verdade
April 30, 20231 month

Todo mundo dizia que era gases. A vó dizia, as tias diziam, até a pediatra dizia, com aquele jeito educado de quem já viu mil mães acharem que o bebê sorriu. Eu fingia que concordava, mas por dentro tinha certeza de que alguns daqueles sorrisos eram de verdade.
Naquela manhã de domingo, eu estava trocando sua fralda e seu pai estava do lado, fazendo palhaçada como sempre. Não sei de onde ele tirou, mas ele fez um barulho de cavalo, um relincho comprido e ridículo, com os lábios tremendo. E você sorriu. Com o rosto inteiro, com os olhos, olhando direto para ele.
Não era gases. Ele fez de novo, e você sorriu de novo. Ele fez a terceira vez, e você riu, um som curtinho que a gente nunca tinha ouvido. Seu pai ficou tão emocionado que precisou sentar na cama. Eu peguei o celular e gravei o quarto relincho, que está guardado até hoje.
Ele passou o resto da semana fazendo barulho de cavalo. No café, no banho, na hora de dormir. Fez no supermercado, na fila do caixa, e uma senhora olhou feio. Fez na casa da vó, e a vó disse que ele estava ficando maluco. Ele estava. Você continuou sorrindo para ele, toda vez.
A canção da vó
June 20233 months

A vó cantava para você a mesma canção de ninar que cantava para mim quando eu era pequena. Uma canção que a mãe dela trouxe do interior, de Candelária, e que nunca ninguém escreveu. Passou de boca em boca, de mãe para filha, por quase cem anos.
Você parava de chorar no segundo verso, toda vez. Podia estar com cólica, com sono, com fome, chorando de ficar vermelha. A vó te pegava no colo, encostava sua cabeça no ombro dela, começava a cantar baixinho, balançando de um lado para o outro, e no segundo verso você ficava quieta e arregalava os olhos para ela.
Numa tarde de inverno, com a chaleira apitando no fundo e você dormindo no colo dela, eu percebi que aquela canção ia se perder se ninguém escrevesse. Peguei um caderno e pedi para ela me ditar a letra inteira. Ela ditou devagar, parando para lembrar, cantando cada verso duas vezes para ter certeza.
Escrevi aqui para você nunca esquecer, do jeito que ela cantou:
Dorme, dorme, passarinho, que a noite já vem vindo, a lua acende o caminho, e a mãe fica sorrindo.
Ela diz que tem mais versos, que a mãe dela cantava mais, mas que esses são os que ficaram. Agora eles estão guardados.
Primeira papinha
September 20236 months

Esperamos os seis meses certinhos, como a pediatra mandou, e eu passei a semana anterior lendo sobre papinha como se fosse fazer uma prova. Comprei um prato de silicone com ventosa, uma colher que muda de cor se a comida está quente, e um babador tão grande que parecia uma capa de chuva.
Abóbora com cenoura, amassada no garfo, sem sal. Seu pai filmou. A vó veio só para ver. O Biscoito sentou embaixo da cadeirinha, estrategicamente, porque ele entende de comida melhor do que todos nós.
Você abriu a boca, provou, e fez uma careta de quem foi traída. Uma careta inesquecível, com a testa franzida e a língua para fora, como se a gente tivesse te enganado. A vó riu tanto que precisou segurar na pia. E então, depois de uns segundos pensando, você abriu a boca de novo. Queria mais.
Metade foi para o babador, um pouco para o cabelo, um tanto para a parede e uma colherada inteira para o Biscoito, que estava esperando exatamente por isso. Ele ficou seu fã para sempre naquele dia. Desde então, em todas as refeições, ele senta embaixo da sua cadeira. Você aprendeu rápido a dividir.
Primeiro Natal
December 25, 20239 months

O primeiro Natal foi no sítio do vô, como sempre foi na nossa família. A casa cheia, a mesa comprida na varanda, as tias brigando por causa da farofa, o vô assando a carne desde cedo. E, no meio de tudo, você, com nove meses, sentada no tapete da sala com um vestido vermelho que a tia Neusa deu.
Você não quis saber dos presentes. Nenhum. Ganhou boneca, livro de pano, um xilofone colorido, e ignorou tudo. Passou a noite inteira tentando pegar o papel de embrulho, amassando, puxando, rasgando, e rindo do barulho que ele fazia. A gente embrulhou de novo uma caixa vazia só para ver você abrir.
A vó esperou todo mundo terminar para entregar o presente dela. Era a manta de crochê amarela, a mesma que ela tinha começado no chá de bebê. Disse que levou o ano inteiro para terminar, uma carreira por noite, enquanto via novela. Estendeu a manta no chão e você engatinhou até o meio e deitou nela, como se soubesse que era sua.
Naquela noite, você dormiu enrolada na manta, no colo do vô, na cadeira de balanço da varanda. Ele não quis passar você para ninguém. Ficou ali, balançando devagar, até a última tia ir embora. A manta ainda hoje está na sua cama.

Part 3
Um ano e os primeiros passos
Um ano e os primeiros passos
March 14, 20241 year

Fizemos a sua festa de um ano no quintal, embaixo da parreira, numa tarde de sol depois de uma semana de chuva. Pouca gente: a vó, o vô, as tias, a Laura da casa da frente com a mãe dela. Bolo de cenoura com cobertura de chocolate, porque era o que a vó sabia fazer melhor, e uma vela só.
Você já ficava em pé segurando nas coisas fazia um mês, mas não soltava de jeito nenhum. Andava de móvel em móvel, de mão em mão, de perna em perna. Naquela tarde, estava segurando a mão do seu pai, perto da mesa. E de repente, sem aviso, soltou.
Deu três passos sozinha até o bolo. Três. Bambos, com os braços abertos para equilibrar, os olhos fixos na vela. A gente parou de respirar. Ninguém se mexeu, com medo de você cair. No terceiro passo você chegou na mesa, segurou na toalha, e depois sentou no chão, surpresa consigo mesma, com uma cara de quem não sabia muito bem o que tinha acabado de fazer.
Os convidados aplaudiram. A vó chorou. E você aplaudiu junto, batendo as mãozinhas, sem saber bem por quê. Seu pai pegou você no colo e girou no ar, e o Biscoito latiu, e a Laura da casa da frente bateu palmas também. Foi o melhor presente da festa, e não estava embrulhado.
“Bicoito”
June 20241 year and 3 months

Fazia semanas que a família apostava qual seria a sua primeira palavra. A vó tinha certeza de que seria “vó”, porque passava as tardes repetindo para você. Seu pai apostava em “papai”, e eu, claro, em “mamãe”. A tia Neusa, do contra, apostava em “não”.
Era uma tarde fria, e você estava na janela da sala, em pé no sofá, segurando o encosto, olhando o quintal. O Biscoito passou correndo atrás de um passarinho, latindo. E você apontou para ele e gritou, alto e claro, com toda a força: “Bicoito!”. Sem o S.
O Biscoito parou no meio do quintal. Olhou para cima, para a janela, com as orelhas em pé. Abanou o rabo. Você gritou de novo, “Bicoito!”, e ele latiu de volta, uma vez, como se respondesse. Os dois ficaram se olhando através do vidro, muito satisfeitos um com o outro.
Ninguém ganhou a aposta. A vó ficou ofendida por uma semana. Seu pai disse que pelo menos tinha sido o cachorro dele. E eu entendi, naquele dia, que os dois tinham uma conversa que a gente não ia entender nunca. Eles se entenderam melhor do que nós, naquela tarde, e continuam se entendendo.
O primeiro dia na escolinha
February 5, 20251 year and 10 months

Na noite anterior, eu arrumei sua mochila três vezes. Troca de roupa, fralda, a garrafinha de água, o lençolzinho para a soneca, tudo com seu nome bordado pela vó. E a lancheira de joaninha, que você escolheu na loja apontando com o dedo e não aceitou trocar por nenhuma outra.
Eu achei que você ia chorar. Tinha lido sobre adaptação, conversado com a professora, preparado um discurso. Seu pai tinha tirado a manhã de folga. Na porta da sala, você olhou para dentro, viu os brinquedos, viu as outras crianças, e entrou sem olhar para trás. Segurando a lancheira de joaninha com as duas mãos. Nem tchau.
Quem chorou fui eu. No carro, no estacionamento, por uns bons dez minutos, com seu pai me passando lenço de papel e rindo de mim, mas com os olhos vermelhos também. Eu sou professora há doze anos. Já vi centenas de primeiros dias. Nunca achei que ia ser assim do outro lado.
Quando fui te buscar, ao meio-dia, você tinha tinta azul até o cotovelo, uma meia trocada e uma amiga nova chamada Laura. Não a da casa da frente, outra Laura. Você me contou tudo no caminho de casa, numa língua que só você falava, e eu entendi cada palavra.
O desenho da família
May 20252 years and 2 months

Era um sábado de chuva e você passou a manhã inteira na mesa da cozinha com as canetinhas, em silêncio, concentrada, com a língua de fora do jeito que o seu pai faz quando está lixando madeira. Não deixava ninguém ver. Dizia que era surpresa.
Quando terminou, trouxe o papel com as duas mãos, como quem entrega um presente. Era a nossa família. Eu, com um cabelo amarelo enorme. O pai, com uma coisa marrom na mão que você explicou que era madeira. Você, no meio, de vestido. E o Biscoito, do mesmo tamanho do pai.
Perguntei por que o cachorro era tão grande, maior que eu e maior que você. Você me olhou como quem não acredita na pergunta, e respondeu, muito séria: “porque ele é muito importante”. Seu pai teve que sair da cozinha para rir lá fora, na chuva.
O desenho está até hoje na geladeira, preso com o mesmo ímã de coração de madeira, no mesmo lugar onde antes ficava a foto do ultrassom. Um dia, você vai olhar para os dois e entender que são a mesma coisa: o jeito que a gente encontrou de guardar quem a gente ama, cada um do tamanho que tem por dentro.
A primeira vez na praia
January 20262 years and 10 months

Fomos para Torres numa sexta-feira, de madrugada, para fugir do trânsito. Você dormiu a viagem inteira e acordou quando o carro parou, já na frente do mar. Seu pai abriu a porta, tirou você da cadeirinha, e te colocou na areia, de frente para a água.
Você olhou o mar por muito tempo. Muito tempo mesmo, sem dizer nada, sem se mexer, com o vento bagunçando seu cabelo. Eu nunca tinha visto você tão quieta acordada. Depois de uns minutos, virou para mim, muito séria, e perguntou: “quem encheu tudo isso de água?”. Eu não soube responder.
Passou a tarde inteira fugindo das ondas e voltando. Fugindo e voltando, gritando de susto e rindo, cada vez mais alto. Seu pai fez um castelo de areia com torres e muralhas, como marceneiro faz, tudo no esquadro, e você derrubou em dois segundos com um pé. Ele fez de novo. Você derrubou de novo. Os dois acharam ótimo.
À noite, no restaurante, você dormiu no colo do pai antes da sobremesa, com areia ainda nos pés e o cabelo cheirando a mar. Ele comeu o sorvete dele com uma mão só, para não te acordar. Na volta, no carro, você acordou um minuto, olhou pela janela e disse: “amanhã de novo”. E dormiu.
Três anos
March 14, 20263 years

Você escolheu o tema da festa sozinha, um mês antes, e não mudou de ideia nenhuma vez: dinossauros cor-de-rosa. Não dinossauros, nem cor-de-rosa. Dinossauros cor-de-rosa. A loja de festa não tinha. Ninguém tinha. Então a família fez.
A vó fez o bolo, de chocolate com cobertura rosa, e desenhou um dinossauro em cima com glacê, que ficou parecendo um cachorro, mas você achou perfeito. O pai fez um dinossauro de madeira para enfeitar a mesa, um tiranossauro de meio metro, pintado de rosa, com dentes brancos e um laço na cabeça. Eu fiz os convites, com a sua ajuda nas cores.
Você assoprou as velas três vezes, porque gostou. A gente acendia de novo, todo mundo cantava parabéns de novo, e você assoprava de novo, rindo. Na terceira vez, o vô pediu para parar porque não aguentava mais cantar. Você deixou, com cara de quem estava fazendo um favor.
Na hora de dormir, com o dinossauro de madeira no pé da cama e a manta amarela por cima, você me perguntou se amanhã seria aniversário de novo. Eu disse que não, que só no ano que vem. Você pensou um pouco e disse: “então amanhã eu brinco com o dinossauro”. E brincou. Ele está no seu quarto até hoje.
Part 4
Carta para abrir aos 18 anos
Carta para abrir aos 18 anos
March 14, 20263 years

Helena,
Quando você ler isto, vai ter quase a idade que eu tinha quando conheci seu pai, numa festa junina da faculdade, numa fila de quentão. Vai ser adulta, vai ter suas próprias histórias, seus próprios segredos, e talvez ache engraçado ler o que a sua mãe escreveu quando você tinha três anos e só pensava em dinossauros cor-de-rosa.
Este livro começou antes de você existir, com dois risquinhos num teste em cima da pia. Escrevemos cada página para que um dia você soubesse de onde veio. Você veio de uma cerejeira que caiu num temporal e virou berço. De uma canção que atravessou cem anos de boca em boca. De um cachorro que deitou do lado da sua cadeirinha e nunca mais saiu. De um pai que tomou café na varanda no inverno, e de uma vó que levou um ano para terminar uma manta.
Você não vai lembrar de nada disso. Nenhum bebê lembra. Mas a gente lembra por você. Lembra do galope do seu coração na tela, das suas mãos compridas, dos três passos até o bolo, do mar que alguém encheu de água. Guardamos tudo aqui, com cuidado, para entregar quando você estivesse pronta.
Agora é seu. Guarde também. E se um dia você tiver uma filha, ou um filho, ou alguém que você ame muito, comece um livro assim, com os dois risquinhos de vocês.
Com todo o amor do mundo, Mamãe e Papai

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