A Trip Remembered · May 2025

Trinta e cinco anos depois

  • 11days
  • 27places
  • May 12–May 222025

Written by Lúcia

A fictional example, made by the Come Ricordo team for demonstration.Livro de exemplo. Esta é uma obra de ficção, criada para mostrar como fica um livro do Come Ricordo. Lúcia, Antônio, Pedro, Alice e todos os demais personagens desta história são fictícios. Os acontecimentos foram imaginados e os lugares reais citados são usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, ou com fatos reais, é mera coincidência. As imagens são ilustrativas, criadas com inteligência artificial e tratadas digitalmente, e não retratam pessoas reais.

Lúcia e Tonho, de Porto Alegre, casados há 35 anos: onze dias em Portugal, de Lisboa ao Douro, em maio de 2025.

O pote da viagem

March 2023 – April 2025

A viagem começou num pote de vidro de pepino em conserva. O Tonho lavou, tirou o rótulo com água quente e colocou em cima da geladeira, com um pedaço de fita crepe onde escreveu “Portugal”. Era março de 2023, e a gente tinha acabado de se aposentar, eu da biblioteca, ele do escritório.

A regra era simples: toda moeda que sobrava ia para o pote. Depois vieram as notas de troco, o dinheiro do bolão que o Tonho ganhou no futebol, os cinquenta reais que a Alice deixou escondidos lá dentro no aniversário dela, com um bilhete: “para o pastel de nata”. Em dois anos o pote encheu duas vezes. A segunda vez a gente nem contou, só olhou um para o outro.

Fazíamos 35 anos de casados em 20 de maio de 2025. Durante trinta e cinco anos a gente disse “um dia a gente vai”. Os filhos, a casa, o carro que quebrava, a mãe dele doente, sempre tinha alguma coisa antes. Dessa vez não teve. Em abril o Tonho comprou as passagens, e eu comprei um caderno de capa verde para escrever tudo.

“Um dia a gente vai” virou “segunda-feira a gente vai”.

Part 1

Lisboa

Dia 1 · A chegada

Monday, May 12 · 2 stops

  1. O voo e o táxi para Alfama
  2. Miradouro de Santa Luzia

O voo e o táxi para Alfama

Dez horas de voo, e o Tonho dormiu nove. Eu fiquei acordada olhando o mapinha do avião atravessar o oceano, como quem confere se a viagem é de verdade. Em Lisboa fazia sol e vento. O taxista falava rápido, comia as vogais, e o Tonho respondia “sim, sim” a tudo sem entender nada.

O hotel ficava numa rua de Alfama tão estreita que o táxi não entrou. Subimos a pé, puxando as malas pelas pedras, e o Tonho parou três vezes “para olhar a vista”. Eu sei que era para respirar.

Miradouro de Santa Luzia

No fim da tarde, sem desfazer as malas, fomos até o mirante do bairro. Os telhados laranja descendo até o rio, as buganvílias, um senhor tocando guitarra para ninguém. O Tejo é tão largo que parece mar.

O Tonho me abraçou por trás e disse baixinho: “a gente demorou, mas a gente veio”. Escrevi no caderno, na primeira página, antes que eu esquecesse.

Dia 2 · O 28 e o fado

Tuesday, May 13 · 3 stops

  1. O elétrico 28
  2. Castelo de São Jorge
  3. A casa de fado

O elétrico 28

O bonde amarelo passa tão perto das casas que dá para tocar nas janelas. Esperamos quarenta minutos na fila e valeu cada um. O Tonho ficou em pé o caminho inteiro, segurando na barra e no chapéu, rindo como menino nas curvas.

Castelo de São Jorge

Lá em cima, as muralhas e os pavões soltos entre as árvores. Um pavão abriu a cauda bem na frente do Tonho, e ele ficou parado, sem coragem de passar. Ficamos uma hora sentados no muro, olhando a cidade inteira, sem pressa nenhuma. Aposentado não tem horário.

A casa de fado

À noite, uma casa de fado pequena, de oito mesas, numa escadinha de Alfama. Apagaram as luzes, ficou só uma vela em cada mesa, e uma senhora de xale preto cantou de olhos fechados. Ninguém falava, ninguém mexia o garfo. Eu não entendi todas as palavras, e não precisei. Um trecho eu anotei no guardanapo, e passei para o caderno no hotel:

Fui ao cais ver partir o barco,

levei o lenço e não acenei,

quem fica sabe o tamanho do mar,

quem parte, só depois o sabe.

O Tonho, que nunca chorou em casamento de filho, saiu de lá com os olhos vermelhos e disse que era a fumaça da vela.

Dia 3 · Belém

Wednesday, May 14 · 3 stops

  1. Mosteiro dos Jerónimos
  2. A fila do pastel de nata
  3. Torre de Belém

Mosteiro dos Jerónimos

A pedra parece renda. Ficamos no claustro até o guarda avisar que ia fechar para o almoço, eu fotografando cada coluna, o Tonho sentado num banco, feliz de me ver feliz. Ele diz que não entende de igreja, mas entende de sombra fresca.

A fila do pastel de nata

A fila dava volta no quarteirão, e a gente entrou nela sem reclamar. Comemos o primeiro ainda quente, de pé na calçada, com canela e açúcar de confeiteiro, e eu lembrei do bilhete da Alice. Comprei uma caixa de seis para levar ao hotel. Chegaram três.

“Esse é o da Alice”, disse o Tonho, e comeu.

Torre de Belém

No fim da tarde, a torre na beira do rio, branca contra o céu. Foi dali que os barcos saíram para o mundo, e foi dali que, muito tempo depois, alguém da família do Tonho saiu para o Brasil. Ele não sabe quem. Ficou um tempo olhando a água, calado.

Palácio da Pena na névoa

Subimos de ônibus, e lá em cima a névoa era tão grossa que o palácio aparecia e sumia, amarelo e vermelho, como um bolo de aniversário nas nuvens. Eu fiquei decepcionada por dez minutos. Depois achei a coisa mais bonita da viagem inteira.

Quinta da Regaleira e o poço

Um poço que não é poço, é uma escada em caracol descendo para dentro da terra, com musgo nas pedras. O Tonho desceu na frente, contando os degraus em voz alta, e no fundo olhou para cima e disse que parecia o olho de alguém. Eu fotografei de baixo, com o céu redondo lá em cima.

Os travesseiros

Na descida, um doce de massa folhada com recheio de amêndoa, ainda morno, num papel. Comemos sentados na escadaria da vila, molhados da névoa, e eu anotei a receita que a moça do balcão recitou de cabeça. Nunca vou conseguir fazer igual. Não importa.

Part 2

A estrada

Dia 5 · Onde a terra acaba

Friday, May 16 · 3 stops

  1. O carro alugado
  2. Cabo da Roca
  3. Óbidos e a ginjinha

O carro alugado

O Tonho dirigiu em Porto Alegre por quarenta anos e nunca pegou uma rotunda como as daqui. Na primeira, demos três voltas inteiras. Na segunda, ele riu tanto que precisou parar no acostamento. Eu era a navegadora, com o celular numa mão e o caderno na outra, e errei a saída só duas vezes.

Cabo da Roca

O ponto mais a oeste da Europa. Um farol, um penhasco, um vento que quase leva a gente junto, e depois disso só o oceano até o Brasil. Fiquei pensando que, do outro lado daquela água toda, nossa casa estava fechada, com o pote vazio em cima da geladeira.

“Daqui pra frente é só voltar”, disse o Tonho, segurando o chapéu com as duas mãos.

Óbidos e a ginjinha

Uma vila inteira dentro de uma muralha, casas brancas com barras azuis e amarelas, flores em todas as janelas. Na rua principal vendem ginjinha num copinho de chocolate: bebe o licor e come o copo. Tomamos dois cada um. Depois o Tonho quis andar em cima da muralha, que não tem corrimão, e foi de mãos dadas comigo o caminho inteiro, olhando só para os pés.

Dia 6 · O chapéu

Saturday, May 17 · 2 stops

  1. A praia e as senhoras de sete saias
  2. O Sítio e o vento

A praia e as senhoras de sete saias

Nazaré em maio não tem as ondas gigantes das revistas. Tem um mar azul calmo, uma praia comprida e senhoras de saias rodadas, uma por cima da outra, secando peixe ao sol em redes de madeira. Uma delas nos vendeu castanhas e contou que usa sete saias desde menina. O Tonho perguntou se não dava calor. Ela riu e disse que dá calor é de calça.

O Sítio e o vento

Subimos ao Sítio pelo elevador do penhasco para ver a praia lá de cima. No mirante, uma rajada levou o chapéu do Tonho. Ele subiu, deu duas voltas no ar e desceu girando até sumir lá embaixo, na areia, a cem metros de altura. O Tonho ficou olhando com a boca aberta. Eu não consegui parar de rir por meia hora.

Até Coimbra ele andou de boné azul comprado numa banca, e reclamou de cada minuto.

Dia 7 · Coimbra

Sunday, May 18 · 3 stops

  1. A universidade
  2. A biblioteca onde não pode foto
  3. A serenata

A universidade

A universidade mais antiga do país fica no alto da cidade, e chega-se lá por ruas tão íngremes que têm nome de escada. No pátio, estudantes de capa preta passavam correndo, como se fosse dia de prova. Eu fui bibliotecária a vida inteira e nunca tinha visto um pátio de faculdade com vista para um rio.

A biblioteca onde não pode foto

A Biblioteca Joanina é toda de madeira e ouro, com escadas escondidas nas estantes e livros de trezentos anos. Lá dentro não pode foto, e eu nem tentei: fiquei dez minutos parada no meio da sala, de boca aberta, e a guia teve que me chamar duas vezes. O Tonho diz que foi a única vez na viagem em que me viu sem palavras.

A única foto é a da porta, por fora. Para mim basta.

A serenata

À noite, nas escadas da Sé Velha, um grupo de estudantes de capa cantou o fado de Coimbra, que é cantado por homens e para alguém. No fim, todo mundo bateu palma, menos os de Coimbra, que tossem, porque aqui não se aplaude a serenata. A gente não sabia e bateu palma. O Tonho ficou tão vermelho quanto o boné era azul.

Part 3

O Norte

Dia 8 · O Porto

Monday, May 19 · 2 stops

  1. A Ribeira e a ponte
  2. A livraria

A Ribeira e a ponte

O Porto é Lisboa de casaco: mais cinza, mais íngreme, mais sério, e de repente mais bonito. Descemos até a Ribeira, as casas coloridas empilhadas na beira do rio, os barcos de madeira carregados de barris. Atravessamos a ponte de ferro pelo andar de cima, a pé, com o metrô passando do lado. O Tonho, que tem medo de altura, foi olhando para o horizonte e cantando baixinho para não olhar para baixo.

A livraria

Uma hora e meia de fila para entrar numa livraria. O Tonho achou um absurdo e ficou na fila comigo assim mesmo. Lá dentro, a escada vermelha que se enrola no meio da sala, as estantes até o teto, os vitrais. Comprei um livro de poemas portugueses só para ter o carimbo da casa na primeira página. Trinta anos cuidando de livros dos outros, e esse foi o primeiro que eu comprei só pela livraria.

Dia 9 · Trinta e cinco anos

Tuesday, May 20 · 2 stops

  1. O trem pelo rio
  2. O brinde na quinta

O trem pelo rio

Nosso aniversário de casamento. Pegamos o trem cedo, de janela, e por duas horas o rio veio do nosso lado, verde, largo, com os morros cobertos de vinhedo em degraus, como uma escadaria de gigante. Eu fiquei com a testa no vidro. O Tonho ficou segurando a minha mão e fingindo que lia o jornal.

O brinde na quinta

Numa quinta pequena, no alto do vale, uma senhora nos serviu vinho do Porto numa varanda de pedra, com queijo e amêndoas. Quando soube que era nosso aniversário, trouxe uma garrafa de 1990, o ano em que a gente casou, e não quis cobrar. O Tonho levantou o cálice e fez um discurso de uma frase só:

“Trinta e cinco anos, e eu ainda escolheria a mesma fila.”

A gente se conheceu numa fila de banco, em 1988. Ele deixou eu passar na frente. Eu chorei na varanda da quinta, e a senhora chorou junto, sem saber direito por quê.

Dia 10 · O azulejo e o chapéu

Wednesday, May 21 · 2 stops

  1. O Mercado do Bolhão
  2. Pôr do sol na Foz

O Mercado do Bolhão

De manhã, o mercado: flores, bacalhau seco empilhado como lenha, queijos, uma senhora que vendia sardinha gritando como se fosse briga. Comprei um azulejo pintado à mão, azul e branco, com um passarinho, numa banca de um senhor que pinta todos ele mesmo. Ele embrulhou em jornal e disse que é para pendurar na cozinha, “onde a casa acontece”.

Na banca do lado, o Tonho achou um panamá quase igual ao que voou em Nazaré. Comprou na hora e deu o boné azul para o neto do pintor.

Pôr do sol na Foz

A última tarde, na Foz, onde o rio encontra o mar. Sentamos no muro do cais, ele de chapéu novo, eu com o caderno no colo, quase cheio, com flor de Sintra, bilhete de trem, guardanapo do fado. O sol desceu no oceano, do lado de lá do qual fica a nossa casa. Ninguém falou nada por um bom tempo. Não precisava.

Dia 11 · A volta

Thursday, May 22 · 2 stops

  1. O cartão
  2. Em casa

O cartão-postal

No avião, o Tonho dormiu de novo. Eu escrevi um cartão-postal para os netos, que vai colado aqui, porque não tive coragem de mandar pelo correio e correr o risco de ele se perder.

Pedro e Alice,

o pastel de nata da Alice foi comido pelo avô, logo no terceiro dia. Ele pede desculpas e promete outro, no lugar certo, quando vocês vierem com a gente. Vimos um castelo com pavões, um poço que é uma escada, um chapéu que voou de um penhasco e uma biblioteca de ouro onde a vó ficou sem palavras, coisa que vocês sabem que é rara.

A gente demorou trinta e cinco anos para fazer essa viagem. Não demorem tanto. Guardem moedas num pote, e quando ele encher duas vezes, vão.

Com saudade e todo o nosso amor,

Vó Lúcia e Vô Tonho

Em casa

O azulejo está na parede da cozinha, em cima da pia. O pote voltou para cima da geladeira, lavado, vazio, com uma fita crepe nova. O Tonho escreveu: “Itália”.

Comments

Log in to leave a comment. You'll come straight back here.Log in to comment

Loading comments…

Written by Lúcia

Come Ricordo · Memories

This page online: comoricordo.com/en/memories/15

Made with Come Ricordo · comoricordo.com